Em meio às águas extensas do Baixo Madeira, onde a floresta dita o ritmo da vida, um grupo de estudantes ribeirinhos encontrou na arte uma forma de traduzir sua relação com a Amazônia.
O projeto “Percepções Amazônicas: a poesia da Amazônia em formas e cores”, idealizado pelo artista e educador Flávio Dutka e contemplado pela Lei Paulo Gustavo, transformou salas de aula em ateliês criativos, dando voz — e imagem — à juventude que vive diariamente o que muitos só conhecem pelos noticiários.
Mais do que uma oficina de pintura, a iniciativa se consolidou como um instrumento de educação ambiental, valorização cultural e fortalecimento emocional, convidando os alunos a repensar a floresta não apenas como paisagem, mas como parte inseparável da própria identidade.
O OLHAR DE QUEM CONHECE A FLORESTA POR DENTRO
Radicado em Rondônia há décadas, Flávio Dutka — paranaense de formação em História — construiu carreira como artista visual e professor em comunidades do Baixo Madeira. Suas obras, marcadas pela fusão entre espiritualidade, natureza e ancestralidade, serviram de base para um processo artístico que, no projeto, priorizou o sentimento, a memória e o pertencimento.
“Ninguém conhece a Amazônia melhor do que quem nasce e cresce às margens dos rios”, observa Dutka. Essa perspectiva se materializa nas telas dos estudantes, que apresentaram obras de forte sensibilidade e estética próxima à arte naïf, destacando a expressividade acima de qualquer rigor técnico.
As pinturas revelam tanto a exuberância do bioma quanto o cotidiano simples que sustenta a vida ribeirinha. Entre elas:
- Kethley Carolline (9º ano) retratou araras-azuis e uma onça-pintada em uma composição vibrante, celebrando a fauna amazônica.
- Guilherme Vinicius França (6º ano) pintou uma embarcação singrando o rio, simbolizando a importância vital das águas para transporte, alimentação e sobrevivência.
- Franciny Rodrigues dos Santos (7º ano) emocionou com um céu noturno em tons contrastantes, onde a lua crescente ilumina a escuridão simbólica da floresta.
- Joaquim Alejandro de Souza (6º ano) sugere a valorização da biodiversidade e a presença da lua e do peixe simbolizando os ciclos naturais da Amazônia.
- Pedro Henrique Alves (8º ano) une elementos naturais e humanos demonstrando compreensão de que a Amazônia é um ecossistema vivo e independente – um espaço de vida, diversidade e beleza natural.
- Kauan de Souza Mendonça (9º ano) demonstra maturidade ao retratar a Amazônia com tanta riqueza, não apenas com conhecimento, mas também envolvimento emocional.
- Kellen Khaline (9º ano) revela tanto domínio artístico quanto sensibilidade ecológica.
Cada obra acima, como as demais da exposição funcionam como uma afirmação de que a Amazônia não é um território distante: é lar, memória e futuro.
ARTE-EDUCAÇÃO COMO RESISTÊNCIA E PERTENCIMENTO
O projeto, realizado também com apoio da Magna Produtora, do cantor e compositor Bado, da Escola Municipal Francisco Braga e de educadores da RESEX Lago do Cuniã, reforça o poder transformador da arte em comunidades tradicionais.
Estudos sobre propostas pedagógicas semelhantes apontam que a expressão artística favorece não apenas o aprendizado cognitivo, mas também o desenvolvimento emocional e social — especialmente entre jovens sujeitos ao impacto de vulnerabilidades e ao risco de apagamento cultural.
“A arte permite que os alunos elaborem sentimentos e compreendam temas complexos, como mudanças climáticas e biodiversidade, de maneira sensível e crítica”, destaca a avaliação de projetos baseados na metodologia de Dutka.
Ao retratar suas próprias vivências, os estudantes se reconhecem na história da Amazônia e se tornam, na prática, defensores da floresta que os forma. A exposição final, realizada na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã — a primeira mostra artística da região — representa para os jovens mais que um evento cultural: é um marco de valorização e autoestima.
A AMAZÔNIA PELO TRAÇO DE QUEM A HABITA
Logo, “Percepções Amazônicas” reafirma o papel da escola como espaço de transformação e mostra que pincéis e tintas podem ser tão poderosos quanto livros e mapas quando o assunto é formação cidadã. Em um cenário global marcado pela crise climática e pela desinformação, projetos como esse se tornam essenciais para incentivar o protagonismo juvenil e garantir que a Amazônia siga viva — não apenas na geografia, mas na memória coletiva.
A poesia visual criada pelos estudantes ribeirinhos é, acima de tudo, um lembrete: proteger a floresta começa por ouvir aqueles que a carregam no olhar, na pele e no cotidiano.
Iniciativa contemplada pelo Edital nº 10/2024 da SEJUCEL/SIEC – Lei Paulo Gustavo — une arte, cidadania e pertencimento para fortalecer a consciência ambiental entre jovens do Baixo Madeira.
Fonte: Gente de Opinião





